Mirei o espelho
E o espelho me mirou
Prendi o grito
E o grito me prendeu
Soltei as patas
E as patas me soltaram
Rodei a baiana
E a baiana me rodou
Bebi todas
E todas me beberam
Larguei de mão
E as mãos me largaram
Mas quando caí de amores
E o amor caiu em mim
Acordei pra vida
E a vida acordou em mim

Acordei assim
Meio desacordado

Tentando sair do sono
E o sono teimando em ficar em mim

Lutando pra sair do sonho
E o sonho teimando em ficar em mim

Fugindo do gosto ilusório
E o gosto explodindo em minha língua

Desviando da visão inebriante
E a visão voltando em cada piscar

Escapando do aroma embriagante
E o aroma invadindo meus poros

Calando os sussurros sedudores
E os sussurros suspirando pelas frestas

Me afastando da pele aveludada
E a pele me envolvendo qual lençol

É, fui acordado assim
Meio desacordado
E inteiro contrariado

Vou fugir da estrutura natural deste livro (nove parágrafos de três linhas) para este encerramento provisório. E também vou falar em primeira pessoa, pois já não é mais necessário o distanciamento que criei para olhar de fora cada um dos temas abordados.

Apesar deste distanciamento, sempre me incluí nas reflexões. Eu era o ser humano, era o nós, era o parceiro, a parceira, era todos os personagens. Ora protagonista, ora coadjuvante. E sempre aprendiz, sempre espantado com as descobertas.

Simplesmente não dava para ter um olhar frio. Observar, mas não como um terapeuta. Eu precisei sentir cada um dos tópicos. E vários tópicos que anotei como títulos provisórios/possíveis, que me pareciam relevantes, foram atropelados por outros que faziam mais sentido.

Foram seis anos escrevendo. Nunca imaginei que demoraria tanto para escrever… 27 páginas. Sim, só 27 páginas (de A4). Pensei escrever em um ou dois meses. Mas simplesmente me distanciava do livro, pois para escrevê-lo, eu tinha que me voltar para relações. E é simples a explicação: era preciso estar vivendo, ou recém ter vivido, para me conectar, para voltar o olhar para os detalhes.

Curiosamente, eram sempre momentos pós-relacionamentos. Era na reflexão dos erros, acertos, do que poderia ser melhor ou do que não tinha mais conserto, que a reflexão chegava.

Mas não na reta final, onde tudo brotou de forma abrupta no nascimento de uma nova relação. Que, evidentemente, era só uma criança. E eu acreditei nesta criança. Porque é preciso acreditar. E acreditar nela me fez ver alguns pontos que não conseguia anteriormente; eu só enxergava cadáveres de relações. E então mirei uma relação infante. É outra visão. Entre tantas que ainda desconheço. Entre tantas fases que ainda quero viver e aprender caminhando.

Foi, bom, entretanto, poder usar o que enxerguei imediatamente. Ou tentar usar…

… pois deixo claro que não vivo tudo que escrevi. Talvez alguns pontos, sim: mas todos coloquei no papel porque neles acredito; e estou, aos trancos e barrancos, lutando por exercitar. Repetindo erros. Errando diferente. Não sou, enfim, nada em especial; sou comum. Também sou, em última instância, apenas um leitor a mais do que eu mesmo escrevi.

Me parece que não existe um final para este livro. É aberto, e cada um que lê pode acrescentar seu capítulo, alterar os existentes, transformá-lo, reinventá-lo.
Te convido então, caro leitor, a fazer este livro teu, do teu jeito.

Este livro começa, mui apropriadamente, com “O Começo”. Seria coerente encerrar com “O Fim”. Refletir sobre como terminam as relações, como agem as pessoas. Mas soaria muito pessimista encerrar deste modo. Enfim: nem todo fim é mesmo o fim.

As relações não são como nas películas: não tem um início, meio e fim, e mesmo um “foram felizes para sempre” daria outro filme. Talvez um dia algum cineasta se detenha em esmiuçar a vida de casada da Branca de Neve ou da Cinderela.

Imagine a Branca de Neve emburrada porque o Príncipe demorou para voltar do futebol. Ou o outro Príncipe aborrecido com o atraso da Cinderela em se arrumar, pois ficou mal acostumada com a fada que a vestia com a varinha de condão.

Não, o fim não é uma unanimidade. Às vezes a relação acaba unilateralmente; o outro ainda se mantém ligado, não termina. Por vezes, já acabou há tempos, e só falta que os parceiros assinem o atestado de óbito, o divórcio, a separação. Não, o fim não é fácil de datar.

Nem tudo, porém, tem fim. Por vezes a relação tem fim; mas o bem querer mútuo continua. Nem sempre o gostar tem como alvo alguém com quem se tenha afinidade diária; mas o gostar não se desfaz. Enfim, finda a relação, mas não finda o bem querer.

E muitos finais são pausas. Por vezes, a pouca maturidade dos parceiros os afasta. Machucam-se, magoam-se. Por crianças que são (e todos somos), não sabem lidar com os dilemas diários. Ou não conseguem enxergar, sem métricas, sem comparações, que aquilo que possuem lhes é caro.

Muitos finais, são, então, etapas de aprendizado para uma volta. Uma volta entre parceiros diferentes, que revisitaram seus valores, despiram-se de seus quereres e encontraram suas necessidades. E reencontram-se. E aquele antigo fim se torna apenas um capítulo.

Permitir-se voltar é algo complexo. Recomeçar após um fim às vezes também parece impossível. Despir-se de ranços, mágoas, os “nunca mais quero isso pra mim” e outra imagens negativas ou falsamente positivas que criamos demanda tempo e esforço.

Para que um fim seja um recomeço, o capítulo do meio do nosso livro, há de se perdoar a si mesmo. De se acreditar que todos merecemos reiniciar, se aprendemos algo. Como num bom livro, nos dói ter que largá-lo em seu ponto final. Mas precisamos levantar e pegar outro na estante.

Quando olhamos para nossos primeiros e inocentes amores, paixões, nos deparamos com emoções nostálgicas. Quantas vezes, depois de poucas ou muitas desilusões amorosas, sentimos o desejo de retomar aquelas emoções tão mais simples, tão menos complicadas (para nós agora…).

Tentamos identificar qual é o fator, ou fatores, que tornaram aquelas sensações tão marcantes, e porque não conseguimos mais nos conectar com elas. Onde está o toque mágico que torna as nossas primeiras relações tão intensas. Tão óbvias e marcantes.

Talvez não exista uma explicação única, ou uma palavra única. Olhando, porém, atentamente, notamos que a inocência traz uma crença de que só há coisas boas, de que o parceiro ou parceira é perfeito, de que tudo vai continuar bem para o resto de nossas vidas.

Então, ao esmiuçar o parágrafo acima em busca de sua essência, nos deparamos com o crer. O acreditar. Acreditamos inocentemente, naqueles belos dias, que tudo poderia ser maravilhoso eternamente, como nos momentos em que estávamos na companhia de nosso amado ou amada.

Hoje, calejados, cascudos, rodados, não temos mais aquela inocência, muitas vezes perdemos a fé na pessoa humana. Deixamos de acreditar. Entendemos que acreditar é um ato inocente, tolo, que só nos traz sofrimento, uma vez que já constatamos que a frustração é inevitável.

Pobres coitados, nos vemos em eterna proteção contra todas as pessoas – sejam elas boas ou más, tenham ou não nos feito bem ou mal. De tanto não acreditar, deixamos, enfim, de acreditar que podemos ser felizes, que existam pessoas que se interessem pela felicidade alheia.

Acreditar pode ser um risco; mas não acreditar é uma sentença. Acreditar pode nos fazer sentir dores; não acreditar pode nos fazer nunca sentir nada. Acreditar pode trazer feridas; não acreditar é não deixar que elas cicatrizem.

Acreditar é um pressuposto para uma relação. Quem não está em ponto de acreditar, aborta antes de conceber. Mata qualquer possibilidade de construção, pois não permite a construção do alicerce. Em qualquer falha encontra desculpas para demolir a casa.

É preciso acreditar porque temos que dar ao outro a força para acreditar também. Estar aberto, para recebermos alguém também aberto. Só recebemos alguém em nossa casa se abrirmos a porta, só abrimos a porta se acreditamos. Acreditar é doar-se.

Das “causa mortis” de uma relação, a mais dura, tosca, cortante, numa votação, certamente seria a traição. Entendendo-se, corriqueiramente, que parceiro ou parceiro se relacionou com um terceiro, seja em que nível for – ficar, beijar, flertar, manter uma relação sexual.

Trair marca porque destrói a confiança. Devemos porém ter cuidado: trair pressupõe quebra de um contrato, de um pacto, e há vários tipos. Por mais que não os aceitemos moralmente.
O pacto mais comum, quase implícito em nossa sociedade, é o da fidelidade monogâmica.

Mesmo este pacto possui nuances, e isto causa muitas confusões. A partir de que momento ele vale, por exemplo: do primeiro encontro, dentro de um mês ou quando se assume a relação/namoro? Precisa ser abertamente confirmado ou vale o que a sociedade diz?

E ainda: quem é o algoz e quem é a vítima? A visão óbvia é: quem trai é o equivocado, o cruel, e outro, pobre coitado, é a vítima. Infelizmente, esta é uma simplificação que gera ainda mais erros. Porque muitas vezes a vítima é quem trai – depois de muitas agressões vinda do outro.

E muitas vezes é uma autotraição, autossabotagem – um ciclo de abortar toda e qualquer relação. Noutras vezes, um vício autodestrutivo. Repetição de padrões aprendidos, seja traição vista no seio familiar, seja por não ter estabelecido laços duradouros, e então quebrar qualquer laço criado.

Ser o outro lado, a suposta vítima de traição, é, decerto, muito dolorido. Reconhecer a cru natureza antes desconhecida do parceiro ou parceira, romper com machado o tênue fio da confiança, segurança, pode tornar a pessoa avessa a relações, desacreditada da honestidade humana.

Entra, então, o perdão. Diz a sabedoria popular que o perdão é mais importante a quem perdoa do que a quem é perdoa, pois liberta. Talvez por isso seja tão difícil de acontecer. O perdão definitivo acarretaria realmente apagar os efeitos da traição. E isto exige um grande esforço.

Entretanto, é ainda mais duro perdoar-se. Arrependimento pode acontecer, mas perdoar-se é um ato de bravura. Necessário. Sendo por natureza falhos, só vamos enxergar continuidade de erros. Perdoar-se é um ato de limpeza para aceitarmos que podemos ser felizes.

Trair e perdoar andam de mãos dadas. Nem sempre, entretanto, perdoar permite retomar um laço quebrado. Mas, certamente, permite seguir adiante, deixando a si e ao parceiro livres de ranços, e abertos a novas situações, pessoas, relações.

Há vários lugares comuns a respeito da conquista. Em nossa sociedade machista, o cortejo, a iniciativa sempre foi prerrogativa do homem. À mulher cabia, inclusive, criar barreiras para que o homem a “merecesse”. A modernidade vem minando isto, sem apresentar uma alternativa satisfatória.

Outro lugar comum (e também machista) é que “homem não é aquele que conquista várias mulheres, mas que conquista a mesma todos os dias”. E é machista porque novamente coloca o homem como protagonista, a mulher como um objeto.

Primeiro é preciso lembrar que a palavra conquista também é usada pelos desbravadores quando encontram uma nova terra. E quem conquistasse primeiro, era seu dono. Olhando este significado da palavra podemos entender porque muitas pessoas são “viciadas” na conquista.

Ou viciadas em serem conquistadas. Quando atingem suas metas de conquista (ou de serem conquistadas), chega o fastio, o tédio. E precisam novamente reiniciar este jogo – e muito comumente com outro parceiro ou parceira, pois a conquista através da novidade é mais instigante.

Pausa. Seria a conquista um ato egoísta? Nos vestimos de pavão para atrair nosso objeto de desejo? Ou sermos desejados para ter significado? “Photoshopamos” a aparência e modos para tomar para si quem queremos? Até onde nos doamos, até onde anotamos dívidas numa caderneta?

Porque é reclamação recorrente ao fim das relações: eu me esforcei, o outro não. Eu “lutei pelo amor dele”. Eu fiz “das tripas coração”. Ou então: “nada fez para me conquistar”. Ou ainda: “depois que me conquistou, não moveu mais nenhuma palha por mim”.

Quem sabe o equívoco é que usamos a palavra “conquista”, mas o que as relações precisam de fato é “doação”. Quem conquista, quer algo em troca. Quem doa, não. Ao mesmo tempo, quem quer conquista, sempre vai exigir conquista. Quem aceita doação, sente gratidão.

Talvez o peso dos galanteios, iniciativas, flores, cartões apaixonados, seduções, batons no espelho fosse muito menor se não fossem tratados como uma exigência nas relações – mas sim como um presente. E nossas mães sempre lembravam: “diz o quê, meu filho?” – “Obrigado pelo presente”.

É, talvez o segredo esteja aí. A retroalimentação entre doação de um lado e gratidão do outro. Em mão dupla. Da doação, a gratidão. Da gratidão, a doação. Talvez, enfim, se deixe de conquistar o outro e se passe a conquistar a própria paz na relação.

Chora-se por extremos: de tristeza, de felicidade. Emoções extremas saltam pelos olhos, por vezes de forma tão intensa que respirar é difícil, falar impossível. Um expressão por vezes dolorida, por vezes renovadora de ver sentimentos rolando fisicamente pelo rosto.

De tristeza neste livro já se falou; de felicidade também. O choro que se quer falar aqui e agora é o choro do arrebatamento. O choro da conexão. O choro da comunhão. O choro da comunicação silenciosa. O choro da empatia.

Quando os meninos vão crescendo, e num momento de dor caem no choro, a gente grande lhe diz para crescer, que homem não chora, homem enfrenta, tem coragem, etc. E o menino, repreendido, aprende tortamente que chorar não é aceito.

Quando a menina vai crescendo, e, sendo da sua natureza ter mais empatia com o mundo, se emociona e chora, também é recriminada. O choro é sinônimo de imaturidade, e a mulher moderna, independente, forte, não se deixa levar por qualquer emoçãozinha e cair no choro.

Costumava ser diferente, as meninas tinham direito de chorar e os homens não, mas nosso desequilíbrio consegue encontrar na busca da igualdade entre os sexos desculpas para abolir nossa natureza. E até as meninas/mulheres também sofrem da mesma repressão nestes dias tortos.

Cinquenta chibatadas merecem todos que tolhem o choro dos meninos e das meninas. Cinquenta chibatadas merecem todos que nos tiram o direito e o deleite de lavar nossas dores e desfrutar nossos amores no marejar dos olhos.

Nas lanchonetes dos cinemas, além de pipocas e refrigerantes, também deveriam ser vendidos pacotes de lençol de papel. Maquiagem deveria ser à prova de lágrimas; poderiam as mulheres chorar sem receio de borrá-la.

O arrebatamento do choro deveria ser ensinado, cultivado, e adquirido diante das pequenas sensações. No momento em que a emoção nos consome e não cabe em nós, precisamos ceder a esta pressão avassaladora e deixá-la vazar.

Ninguém poderia ser privado de ao menos uma vez na vida ouvir de alguém – seja parceiro ou parceira, filho, amigo, ou mesmo um desconhecido – uma declaração que lhe tome a voz, lhe corte o fôlego e lhe turve a visão entre lágrimas. A vida é menos que vida sem isso.